25
Ter, Abr
9 Novos artigos

Dom Luiz escreve aos presbíteros por ocasião do dia da santificação

Mensagens do Bispo

No Ano da Misericórdia, neste dia em que celebramos o Jubileu dos Presbíteros, quero rezar com você e por cada um de vocês, filhos escolhidos e “amados no Senhor” (2Ts 2,13). Peço que recebam esta carta como fruto de minha vontade de partilhar algumas questões que considero importantes, na vida e missão dos presbíteros, a fim de crescermos na união e na fraternidade, a serviço do povo de Deus.

Brasão Dom Luiz Antônio Cipolini

“O padre é homem de misericórdia e compaixão. [...] Está chamado a ter um coração que se comove” 
Papa Francisco aos padres da Diocese de Roma (06/03/2014

INTRODUÇÃO

Caríssimos Presbíteros,

Através desta carta, desejo comunicar-me com vocês, como “irmão e amigo” (PO 7), tendo como ponto de partida a grande causa de Jesus, que nos uniu no presbitério da Igreja Particular de Marília, ou seja, o anúncio do Evangelho (cf. Mc 1,15), a alegria da salvação, na felicidade do Reino de Deus.

Meu desejo é estar próximo a você, no esforço de viver uma fidelidade absoluta e inquebrantável para com a missão de anunciar o Reino de Deus (cf. Lc 9,26). Desejo também dizer a todo o presbitério e a cada um, em parti- cular: não tenha medo, não desanime e nem se isole, “porque a força se manifesta na fraqueza” (2Cor 12,9). No pres- bitério não deve haver espaço para o medo, o desânimo e a solidão, pois, como nos ensinou São João Paulo II, “o ministério ordenado tem forma comunitária radical e pode apenas ser assumido como obra coletiva” (PDV 17).

No Ano da Misericórdia, neste dia em que celebramos o Jubileu dos Presbíteros, quero rezar com você e por cada um de vocês, filhos escolhidos e “amados no Senhor” (2Ts 2,13). Peço que recebam esta carta como fruto de minha vontade de partilhar algumas questões que considero importantes, na vida e missão dos presbíteros, a fim de crescermos na união e na fraternidade, a serviço do povo de Deus.

Saúdo a Dom Osvaldo Giuntini, nosso bispo emérito, foi ele quem acolheu e ordenou muitos de vocês. O sentimento que me vem é de gratidão pelo trabalho realizado por ele, e ação de graças pelo seu testemunho de perse- verança. Agradeço ao padre Ademilson Luiz Ferreira, coordenador diocesano de pastoral e aos padres Luiz Eduardo Cardoso de Sá, Marcos Roberto Cesário da Silva e José Ferreira Domingos, vigários episcopais das respectivas Regi- ões Pastorais I, II e III, pela parceria ao escrever esta carta.

Somos atualmente 86 presbíteros, 61 diocesanos e 25 religiosos numa Diocese que conta com seiscentos e setenta e seis mil habitantes (IBGE 2010). Dirijo-me a todos os presbíteros, diocesanos e religiosos, que desenvol- vem seu ministério em nossa amada Diocese de Marília, pois creio firmemente que “a comunhão é, sem dúvida, um dos nomes da misericórdia” (Papa Francisco, Abertura da 69ª. Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana).

O PRESBÍTERO DISCÍPULO

A Igreja, como todo sacramento, é um sinal que aponta para uma realidade mais profunda, oculta e maior: o Reino de Deus. Mas um sacramento não apenas aponta, mas também efetiva a participação no próprio Cristo e na sua obra e destino. Do mesmo modo, a Igreja presentifica o Reino de Deus ao modo do “já e ainda não”. Permite-nos experimentar já agora as forças do Reino de Deus pelo Espírito Santo, enquanto aguardamos, na esperança, sua plena realização.

Enquanto a Boa-nova da vinda do Reino de Deus, em Jesus, dirige-se a todos e implica o convite à conver- são, o chamado ao seguimento dirige-se àqueles que Jesus escolhe, os quais o Senhor espera que partilhem de Sua vida, deixando posses, família, para viver com Ele como comunidade de discípulos (cf. Mc 3,14). Tornar-se presbíte- ro não é primeiramente uma escolha pessoal, mas de Deus. Foi o Senhor quem chamou cada um ao ministério e este chamado teve início no encontro misterioso e amoroso com uma pessoa: Jesus Cristo.

Na certeza de saber-se amado incondicionalmente por Aquele que nos chamou, livremente aceitamos en- frentar os muitos desafios que o chamado nos impõe. Nos momentos de desânimo e incerteza, onde encontrar força para continuar respondendo livremente ao chamado de Deus? Certamente, na vida espiritual bem cultivada de discí- pulo.

Ouvir a Palavra de Deus e meditá-la continuamente é a tarefa primordial do presbítero que deseja ser discí- pulo, para que ele possa dizer como São Pedro: “Em atenção à tua palavra lançarei as redes” (Lc 5,5). O amor à Pala- vra tem seu ponto alto na oração da liturgia das horas, na preparação das homilias, na participação no Retiro Espiritu-

al anual do clero e nos demais momentos de oração e celebração com o presbitério e com a assembleia reunida.

A espiritualidade nunca se encontra somente na teoria, é uma forma de vida, um comportamento. Ela dá forças, quando se constata que para muitas situações absurdas, com as quais o presbítero tem que lidar, não há res- postas, a não ser pela fé. O presbítero tem sua vida espiritual centrada na Palavra e sobretudo na Eucaristia. A oração e o silêncio nos ajudam a permanecer, a cada dia, nas mãos de Deus e no equilíbrio interior. Também é importante reservar tempo para o descanso semanal e o mês de férias (cf. CDC 533).

Somente à luz e ao calor do fogo da Palavra se pode viver e manter o celibato, assumido livremente, com um coração indiviso no serviço ao Reino de Deus a exemplo de Jesus (cf. DAp 196). A Palavra nos dá forças para não ceder ao “mundanismo”, pois em um coração possuído pelas riquezas, não há espaço para o seguimento de Je- sus, para a fé e o amor (cf. EG 93-94).

É sempre uma testemunha que apresenta Jesus para outra: “João Batista estava com dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1,35). Que os presbíteros continuem acolhendo e apontan- do Jesus Cristo a todos e, particularmente, aos jovens seminaristas, que frequentam as paróquias durante o estágio pastoral.

O PRESBÍTERO MISSIONÁRIO

A Igreja é missionária por natureza, pois é fundamentada no mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo: ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura (cf. Mc 16, 15). Desta forma, ao se consagrar a Deus, por meio da Igreja, o presbítero assume de maneira intrínseca a identidade missionária. Torna-se, assim, um protagonista da Boa Nova a partir da missão que lhe é confiada pela comunidade eclesial.

A atualidade nos mostra a necessidade de batizados que assumam, de forma eficaz, o envio missionário, fazendo da Igreja um lugar de encontro de irmãos e, ao mesmo tempo, instaurando uma estrutura eclesial que seja sensível ao sofrimento das pessoas e as acompanhe qual uma mãe zelosa, como nos exortou o Papa Francisco: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamen- to e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).

Em toda ação pastoral nas paróquias, comunidades e movimentos, o presbítero, em comunhão com o bis- po, é o primeiro responsável na condução da Igreja nesta nova perspectiva missionária, abandonando a pastoral de “manutenção” e assumindo os novos desafios da Evangelização. Assim, o presbítero deve abraçar a missão de evan- gelizar, tendo como exemplo o próprio Cristo, o Bom Pastor, em sua solicitude e desejo ardente de ir ao encontro de todos, inclusive dos afastados e excluídos.

A urgência missionária no mundo atual é realmente grande e requer uma renovação da pastoral, concebida como “missão permanente”, seja “ad gentes”, seja lá onde a Igreja já está estabelecida, indo sempre ao encontro da- queles que, por nós foram batizados, com o objetivo de evangelizá-los como autênticos pastores. Apresenta-se a ne- cessidade de uma “conversão pastoral” (cf. DAp, 365-370), para sermos uma Igreja “em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres” (EG 97).

Como Igreja diocesana, bendizemos ao Bom Deus pelos nossos presbíteros que exercem seus trabalhos paroquiais com esmero e que, conscientes do mandato de Jesus, buscam fazer de nossas paróquias um verdadeiro espaço missionário de acolhida, encontro e busca dos irmãos afastados. Assim, nossas comunidades paroquiais, em suas diversas realidades, tornam-se “terra de missão”, espaço apropriado para nós, presbíteros, retomarmos a essên- cia do nosso ministério e fazer com que o Reino de Deus seja conhecido e vivenciado em todos lugares de nossa amada Diocese de Marília.

PRESBÍTERO MISERICORDIOSO

Nunca é demasiado recordar que “o sacerdote é o amor do coração de Jesus” (São João Maria Vianney). Sim! O Padre é a extensão do amor de Cristo pela humanidade, pois é o único capaz, por graça divina, de tornar pal- pável a misericórdia de Deus em todos os tempos, por meio dos sacramentos da Igreja. Disse o papa Francisco: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai” (MV 1) e o padre, desde muito cedo, foi chamado a ser o Alter Chris- tus - Outro Cristo - , ou seja, também ele é a manifestação do amor imensurável de Deus que quer atingir todos as pessoas, dando-lhes nova oportunidade de vida.

Numa Igreja acolhedora, o presbítero deve ser um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Encontrando-se sempre disponível para a confissão, sacramento pelo qual o Cristo, em todo o seu poder e justiça, derrama seu amor

sobre o pecador, perdoando-o e possibilitando-lhe um recomeço. O presbítero é, portanto, canal da graça divina pelo qual Jesus dispensa, sobre seus amados filhos, a graça da reconciliação. Acolher bem é evangelizar. A misericórdia começa com a acolhida e a escuta, principalmente quando se trata de ministrar o sacramento da reconciliação.

Vocação recebida no batismo, o chamado à santidade ganha um sentido especial no ministério ordenado, levando o presbítero a ser sinal que aproxima os homens da bondade de Deus. Instrumentos do sacerdócio eterno de Cristo, continuamos Sua admirável obra de reconciliação e salvação da humanidade.

“É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisso, se manifesta de modo especial a sua onipotência” (MV 6). Não deixemos jamais de nos aproximar dessa insondável misericórdia do nosso Deus. Deixemos que Ele seja nosso amigo. Sejamos amigos dele. Tenhamos amizade com aqueles que Ele costuma preferir. É para isso que fomos chamados. Sem dúvida, muitos são os desafios que nos impelem e, diante dos quais nos sentimos impotentes. Para estas horas, o segredo será na íntima união com Jesus. Quanto mais intimamente estivermos ligados a Ele, mais facil- mente seremos iluminados por sua graça.

Se não estivermos ligados à videira, podemos nos esvair em nossas forças, mas quanto mais nos aproxima- mos de Cristo, tanto mais somos capazes de exercer o serviço que Ele nos confiou. “Assim, fazendo as vezes do Bom Pastor, [os presbíteros] encontrarão no próprio exercício da caridade pastoral o vínculo da perfeição sacerdotal, que conduz a unidade de vida e ação” (PO 14).

A caridade pastoral é nosso “carisma”. Ela é provada por meio da obediência, em especial quando nos de- frontamos com a miséria do próximo, quando somos transferidos de paróquia ou nos deparamos com situações difí- ceis. Nessas situações, precisamos ainda mais, assumir a caridade pastoral missionária.

Sem dúvida, essa caridade fluirá especialmente do sacrifício eucarístico, “por isso é que se recomenda com muita insistência sua celebração diária” (PO 13) em favor da salvação do mundo. Que Cristo seja a força de onde provém a nossa misericórdia, a nossa acolhida, a abertura de coração e a caridade fraterna.

O PRESBÍTERO PROFETA

Ao longo da história da salvação, Deus sempre se fez presente caminhando com seu povo, animando-o e sendo força para reavivar a esperança no seu Reino, que precisava ser renovada cada dia. Sem a presença de Deus o povo teria desfalecido completamente. A presença divina se fez cada vez mais visível mediante mensageiros escolhi- dos por Deus e postos à frente do povo a fim de que este nunca duvidasse de sua pertença ao Senhor e nunca se es- quecesse de sua vocação de povo eleito. Esses mensageiros foram os profetas.

Os profetas personificaram a voz de Deus, conduzindo esse povo na esperança da realização das promessas feitas aos antepassados, que se realizaram por completo com a vinda de Jesus Cristo. Ele, depois de morrer e ressus- citar, confiou aos apóstolos a missão de serem suas testemunhas “em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra” (At 1, 8). Os apóstolos, como novos profetas, viveram a missão que lhes foi confiada pelo Mestre, de maneira que a atividade profética nunca foi interrompida.

É nesta linhagem apostólica que a Igreja se situa e dá continuidade ao profetismo e conta com a pessoa do presbítero, homem escolhido e chamado por Deus para uma especial consagração, não em vista de si mesmo, mas do bem de um povo. O mundo em que vivemos, com seus desafios, constituiu campo fértil para a atividade profética do presbítero.

Embalado pelo desejo de responder com fidelidade à sua missão, o presbítero olha ao seu redor e percebe “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” (GS 1), tornando-as razão de sua ativida- de profética, com olhar especial para com os pobres e excluídos, pelos quais a Igreja faz opção preferencial. Como profeta da alegria, o presbítero se empenha em alimentar em todos a certeza de que Deus sempre caminhou, caminha e caminhará com seu povo.

Neste mundo dominado pela crueldade do mercado e do “capitalismo desumano” (PDV 13) que parece le- var tudo a se consumir e se perder, não estamos somente na sociedade de produção, mas também na sociedade de sedução. O individualismo de tom narcisista vai substituindo as ideologias, disseminando aversão pela política, pelas causas sociais e todo sistema capaz de nortear e dar sentido à vida. A opção preferencial pelos pobres é um caminho de conversão ao Reino de Deus. Somos chamados a dar testemunho de solidariedade com os excluídos que vivem em nossas paróquias e mais que isso, precisamos pensar pastoralmente nossa Diocese a partir das periferias sociais e existenciais.

Atento à realidade, o presbítero se sensibiliza diante das tristezas que assolam a vida do povo. Munido de um olhar realista, o presbítero se faz então profeta da esperança que anima o povo ao longo do caminho, transmitin-

do a todos a certeza de que tanto no passado quanto no presente houve e há um Deus que a todos acompanha, a to- dos sustenta e, por meio de seu Filho Jesus, diz: “Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mt 28,20).

Consciente da sua vocação, o presbítero, na qualidade de profeta, revestido pela graça de Deus, se faz instrumento de Deus no sustento da caminhada de Seu povo e na construção do Reino de justiça, amor e fidelidade. Deus seja louvado pela profecia que se faz viva através do ministério presbiteral!

CONCLUSÃO

Caros presbíteros, na construção do Reino de Deus ninguém está sozinho. Existe algo que é maior, mais necessário e mais amplo que todos os desejos próprios: a evangelização (cf. EN 14-16). É precisamente a causa co- mum querida por todos o que cria uma solidariedade que possibilita compadecer-se do sofrimento do outro e alegrar- se com a alegria dos outros. O presbítero: discípulo-missionário-misericordioso-profeta tem a missão de “guiar a co- munidade a bom porto em meio às possibilidades de contextos muito diversos e adversos com eventuais mudanças rápidas e turbulentas” (16º. ENP 57).

Percebo, com alegria e esperança, o grande esforço dos presbíteros em anunciar o Reino de Deus. Vejo também o desejo, de boa parte dos padres, de assumir o nosso Primeiro Plano Diocesano de Pastoral. Ele nos ajuda na concretização de uma pastoral de Conjunto ou Orgânica, que dê um rosto à nossa Igreja Diocesana. Assim evitare- mos o paroquialismo, que não pensa a paróquia no conjunto da Diocese (cf. CNBB Doc.100, n. 158) e o clericalismo, que não consegue trabalhar com o protagonismo dos leigos.

Aliás, o que há de mais belo, para nós, do que caminhar com o nosso povo, numa Igreja, toda ela, ministeri- al? Neste sentido, o Conselho de Pastoral Paroquial (CPP), Conselho Administrativo Econômico Paroquial (CAEP), e demais conselhos são uma manifestação da sinodalidade da Igreja na paróquia. Pois, apesar dos avanços na cami- nhada da Igreja nas últimas décadas, temos ainda, no campo da identidade e da missão dos leigos na Igreja e no mun- do, um longo caminho a percorrer.

Lembro o importante trabalho da Pastoral Presbiteral, na busca da comunhão e unidade dos presbíteros, superando as resistências que nos impedem de aceitar uma formação permanente e crescer como presbitério.

Termino agradecendo, de coração sincero, o respeito e a colaboração que tenho recebido de vocês, no cum- primento de meu ministério. Desde que assumi a Diocese, no dia 04 de agosto de 2013, tenho procurado demonstrar minha amizade com cada presbítero, com cada situação e com o presbitério, na medida de minhas forças. Por isso, peço que rezem por mim, pois é sobre os bispos que recai o grave dever de santidade de seus sacerdotes (PO 7).

Sinto-me feliz com todos vocês, pelo que são, pelo que realizam e pelo que estão dispostos a fazer, por amor a esta família que é a nossa amada Igreja Particular de Marília. Rogo ao Pai que os guarde do mal (cf. Jo 17,15), faça-os “permanecer no amor” do Sagrado Coração de Jesus (cf. Jo 15,9) e que o Espírito Santo os conduza à “plena verdade” (cf. Jo 16,13). Confio também, a cada um de vocês, à intercessão do Imaculado Coração de Maria e do apóstolo São Pedro, padroeiro de nossa Diocese.

A paz de Cristo esteja com cada um de vocês!

+ Dom Luiz Antonio Cipolini
Bispo Diocesano
Marília, 03 de junho de 2016.
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.

Pastoral da Esperança de Marília
Área de dowloads